domingo, 20 de dezembro de 2015

Gore Vidal sobre os "botões quentes"

           No artigo, "Sexo é Política", Gore Vidal expõe sua teoria dos botões quentes, amparando-se nos fatos políticos da  vida estadunidense dos anos 1970. Ao expor seus argumentos, Vidal demonstra que historicamente políticos e religiosos mobilizam constantemente versões moralistas da sexualidade para obterem dividendos políticos. No Brasil, a bancada evangélica utilizou muito bem os botões quentes no ano de 2015, para a infelicidade dos brasileiros. Abaixo segue o trecho em que Vidal expões a teoria dos botões quentes, o artigo encontra-se na coletânea já esgotada, De fato e ficção (Cia das letras).  O trecho começa na página 230.                                                                                                                                                                                                  
                                                                   xxx                                                                                 

            "Por sorte, nada que é humano é constante. Hoje em dia os casamentos civis são mais numerosos do que os casamentos religiosos; o divórcio é uma coisa corriqueira; a prevenção da gravidez é universalmente praticada, enquanto o aborto é legal para quem tem dinheiro. Mas nossos governantes cederam terreno nestas questões sexuais-sociais com grande relutância, e não é nenhum segredo que há uma boa dose de frustração nas salas de reunião do país.
                Umas das razões é que os trabalhadores, hoje, são menos obedientes do que costumavam ser.  Quando despedidos, podem se apoiar na previdência social — uma invenção do Demônio. Além disso, o fato de a maior parte dos trabalhos que os homens fazem as mulheres também poderem fazer — e fazem — põe em perigo a velha ordem patriarcal. Uma mulher capaz de sustentar-se e de sustentar seu filho é uma ameaça ao casamento, e o casamento é a instituição central através da qual os proprietários do mundo controlam as pessoas que realizam o trabalho. O homossexualismo também representa uma ameaça a seu antigo domínio, porque homens que não têm mulher (231) nem filhos com os quais se preocupar não são facilmente domináveis quanto os que têm.
                Em qualquer momento dado na vida de uma sociedade, há determinados botões ´quentes´ que um político pode apertar para obter uma resposta previsivelmente ´quente´. Há uma década, se você perguntasse ao presidente Nixon o que ele pretendia fazer com a questão do desemprego, provavelmente ele responderia. ´A maconha é apenas uma etapa para coisas piores´.  Falar contra o pecado é uma boa política — e não se preocupem com os non sequiturs. Na realidade, é positivamente não-americano — chega a ser comunista — discutir um problema real como o desemprego ou quem está roubando todo o dinheiro do Pentágono.
                Para distrair o eleitorado, o político americano inescrupuloso tratará de perseguir os grupos que o Velho ou o Novo Testamento não vêem com bons olhos. Os descendentes de Ham são permanentemente malvistos pelos americanos brancos. Para azar do usuário do botão ´quente´, é considerado de mau gosto perseguir abertamente os negros. Mas sempre restam as expressões codificadas. Todo mundo sabe que ´encostado na previdência social´ quer dizer negro, assim como ´lei e ordem´. A primeira porque a maioria das pessoas sustentadas pela segurança social são negros (na verdade, são brancos); a segunda porque existe a crença generalizada de que a maior parte dos crimes urbanos são cometidos por negros contra brancos ( na realidade, são cometidos por negros desempregados contra outros negros). Mas os negros pobres não são as únicas vítimas. Muitos cristãos e alguns judeus não gostam muito de gente branca pobre, partindo do velho princípio puritano de se que você é bom, Deus irá enriquecê-lo. Essa é uma linha evangélico-cristã bem conhecida, recentemente alardeada pelo renascido milionário Walter Hoving.  Ao se ver na situação de não ter 2 milhões e 400 mil dólares do total que necessitava para comprar as lojas Bonwit Teller, de Nova York, Mr. Hoving ´abriu-se para o Senhor´, que imediatamente apareceu (231/232) com o dinheiro. ´Foi totalmente milagre´. Agora sabemos por que os ricos estão sempre conosco. Deus gosta deles.
                Os judeus são permanentemente malvistos pelos cristãos americanos porque são responsáveis para todo o sempre pelo assassinato de Jesus, não importa o que possam dizer aqueles idólatras católicos romanos, entupidos de vinho, no Segundo Concílio Vaticano. É verdade que agora, com a criação de Israel, os cristãos têm uma admiração relutante pelos judeus como opressores. Mesmo assim, na terra dos nascidos e renascidos, uma das questões de fé é que os meios de comunicação de massa nos Estados Unidos estão nas mãos dos judeus, e que o objetivo destes é liquidar com o povo de Deus. Consequentemente, ´meios de comunicação de massa ´é a expressão codificada deste ano para ´abaixo os judeus´, enquanto ´Salvem as Nossas Crianças´ significa ´abaixo as bichas´.
                Mas política, como sexo, frequentemente aceita estranhas alianças. Este ano os cristãos militantes estão lado a lado com os judeus militantes, apertando o tipo de botões quentes que imaginam que irão fortalecer o domínio do país através da solidificação da família. Aparentemente, a família só pode ser fortalecida se as mulheres não tiverem direitos iguais aos dos homens, nem no mercado de trabalho nem relativamente a seus próprios corpos (Não abortarás). É por isso que a derrota da Emenda dos Direitos Iguais à Constituição tem grande importância simbólica.
                Os Salvadores da Família também desejam leis fortes, cujo objetivo ostensivo é restringir a pornografia, mas que na realidade objetivam recusar a liberdade da palavra àqueles de quem não gostam."

sábado, 24 de outubro de 2015

De tudo um pouco, interessa a historiadores e amantes da literatura. Carta de Voltaire ao Marquês D´Argenson, escrita em 1740:

           "...As infâmias de tantos homens de letras não impedem meu amor à literatura. Sou como os verdadeiros carolas que continuam a amar a religião, apesar dos crimes dos hipócritas...
            Tenho uma ideia curiosa na cabeça, a de que somente as pessoas que escreveram tragédias conseguiram injetar algum interesse em nossa história seca e bárbara. É preciso, numa história, como numa peça de teatro, exposição, trama e desenlace. 
            Mais uma ideia. Sempre se fez história dos reis, nunca a das nações. Parece que, durante mil e quatrocentos anos, tivemos na Gália apenas reis, ministros e generais. Nossos costumes, nossas leis, nossos hábitos, nosso espírito, nada são?..."

terça-feira, 20 de outubro de 2015

      Usando como metáfora o trabalho extenuante dos prisioneiros soviéticos que ao pisotearem a neve e a terra criavam as estradas na URSS, Chalámov conclui

"Dos que abrem caminho, todos, até o menor, o mais fraco, em algum momento tem de pisotear um pedaço de terra virgem coberta de neve e não a pegada alheia. QUEM VAI DE TRATOR E A CAVALO NÃO SÃO OS ESCRITORES, MAS SIM OS LEITORES." Contos de Kolimá, Varlam Chalámov
"Sabem que a honestidade é como a chita; há de todo o preço, desde meia pataca." Machado de Assis

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pérolas de Juan Carlos Onetti no livro, Junta-Cadáveres


"...mas cada posição rebelde tem também seus artigos de fé, seus preconceitos, sua burguesia..."
"...Eu só quero coisas, novidades concretas, absurdos que me façam diferente; quero que me olhem, quero ser o escândalo, quero que lhes seja impossível me confundirem com eles mesmos, ter-me e pensar-me como um igual. Não me interessa um passado, o amanhã é sempre território alheio. Tem que ser agora, cada vez agora e já, já. Só gosto das palavras quando se convertem em coisas;.."

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Um pouco de sobriedade sobre o fenômeno religioso

"O que propõe uma fé nova é perseguido, na espera de que chegue a ser, por sua vez, perseguidor: as verdades começam por um conflito com a polícia e terminam por apoiar-se nela; pois todo absurdo pelo qual se sofreu degenera em legalidade, como todo martírio desemboca nos parágrafos de um código, na insipidez do calendário ou na nomenclatura das ruas. Neste mundo, até o próprio céu se torna autoridade; e houve períodos que só viveram para ele, Idades Médias mais pródigas em guerras que as épocas mais dissolutas, cruzadas bestiais, falsamente revestidas de sublimidade, ante as quais as invasões dos Hunos parecem travessuras de hordas decadentes." Emil Cioran, Breviário de Decomposição. p. 82

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A quem serve aquele que carrega o ódio nos olhos

           No conto, Cambrino, Aleksandr Ivánovitch Kuprin relata em uma passagem muito pertinente como aquele que na multidão dos que estão encolerizados, pode ser usado para os fins mais odientos e irracionais. O conto trata de uma cervejaria e de seu ilustre músico judeu, Sachka, que foi perseguido de várias formas e em diferentes momentos, inclusive nos pogroms ocorridos durante o czarismo. Principalmente o de 1907, é bom enfatizar que Kuprin foi jornalista, e realmente conheceu um músico de características semelhantes.

xxx

            "Aquando dos pogroms, Sachka andava livremente pelas ruas, com a sua cara engraçada de macaco, bem judia. Não buliam com ele. Tinha uma bravura inabalável de espírito, o destemor do temor, que protege até os fracos melhor do que quaisquer Brownings. Mas uma vez, quando, apertado à parede de um prédio, se desviou de uma multidão, que fluía qual furacão, um pedreiro, de camisa vermelha e avental branco, brandiu o escopro sobre ele e pôs-se a rugir:
              - Ju-deu!Batei neste judeu! Arrancai o seu san-n-gue!
              Mas alguém lhe segurou o braço por trás.
              - Pára, diabo. Este é o Sachka. Deixa-o em paz, seu filho de uma rameira imunda...
              - O pedreiro deteve-se. Naquele absurdo instante de loucura e embriaguez estava disposto a matar quem quer que fosse - o pai, a irmã, o padre, e até o deus mais ortodoxo -, mas também estava disposto a obedecer a qualquer vontade firme.
              Deu um sorriso largo, como um idiota, cuspiu e limpou o nariz com as costas de uma mão. De repente, porém, os seus olhos caíram sobre um cãozinho branco e agitado, que, a tremer, se esfregava na parede, ao pé Sachka. Agachando-se agilmente, ele o agarrou pelas pernas traseiras, levantou-o alto, bateu-lhe com a cabeça na laje da calçada e saiu a correr. Sachka olhou para ele  em silêncio. O homem corria inclinado para a frente, com os braços estendidos, sem gorro, de boca aberta e com os olhos redondos e brancos de loucura.
              Os miolos de Biélotchka, respingaram as botas de Sachka. Ele limpou a mancha com um lenço." Aleksandr Krupin, Cambrino, In: O bracelete de granadas. pp. 103-104