sábado, 24 de outubro de 2015

De tudo um pouco, interessa a historiadores e amantes da literatura. Carta de Voltaire ao Marquês D´Argenson, escrita em 1740:

           "...As infâmias de tantos homens de letras não impedem meu amor à literatura. Sou como os verdadeiros carolas que continuam a amar a religião, apesar dos crimes dos hipócritas...
            Tenho uma ideia curiosa na cabeça, a de que somente as pessoas que escreveram tragédias conseguiram injetar algum interesse em nossa história seca e bárbara. É preciso, numa história, como numa peça de teatro, exposição, trama e desenlace. 
            Mais uma ideia. Sempre se fez história dos reis, nunca a das nações. Parece que, durante mil e quatrocentos anos, tivemos na Gália apenas reis, ministros e generais. Nossos costumes, nossas leis, nossos hábitos, nosso espírito, nada são?..."

terça-feira, 20 de outubro de 2015

      Usando como metáfora o trabalho extenuante dos prisioneiros soviéticos que ao pisotearem a neve e a terra criavam as estradas na URSS, Chalámov conclui

"Dos que abrem caminho, todos, até o menor, o mais fraco, em algum momento tem de pisotear um pedaço de terra virgem coberta de neve e não a pegada alheia. QUEM VAI DE TRATOR E A CAVALO NÃO SÃO OS ESCRITORES, MAS SIM OS LEITORES." Contos de Kolimá, Varlam Chalámov
"Sabem que a honestidade é como a chita; há de todo o preço, desde meia pataca." Machado de Assis

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pérolas de Juan Carlos Onetti no livro, Junta-Cadáveres


"...mas cada posição rebelde tem também seus artigos de fé, seus preconceitos, sua burguesia..."
"...Eu só quero coisas, novidades concretas, absurdos que me façam diferente; quero que me olhem, quero ser o escândalo, quero que lhes seja impossível me confundirem com eles mesmos, ter-me e pensar-me como um igual. Não me interessa um passado, o amanhã é sempre território alheio. Tem que ser agora, cada vez agora e já, já. Só gosto das palavras quando se convertem em coisas;.."

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Um pouco de sobriedade sobre o fenômeno religioso

"O que propõe uma fé nova é perseguido, na espera de que chegue a ser, por sua vez, perseguidor: as verdades começam por um conflito com a polícia e terminam por apoiar-se nela; pois todo absurdo pelo qual se sofreu degenera em legalidade, como todo martírio desemboca nos parágrafos de um código, na insipidez do calendário ou na nomenclatura das ruas. Neste mundo, até o próprio céu se torna autoridade; e houve períodos que só viveram para ele, Idades Médias mais pródigas em guerras que as épocas mais dissolutas, cruzadas bestiais, falsamente revestidas de sublimidade, ante as quais as invasões dos Hunos parecem travessuras de hordas decadentes." Emil Cioran, Breviário de Decomposição. p. 82

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A quem serve aquele que carrega o ódio nos olhos

           No conto, Cambrino, Aleksandr Ivánovitch Kuprin relata em uma passagem muito pertinente como aquele que na multidão dos que estão encolerizados, pode ser usado para os fins mais odientos e irracionais. O conto trata de uma cervejaria e de seu ilustre músico judeu, Sachka, que foi perseguido de várias formas e em diferentes momentos, inclusive nos pogroms ocorridos durante o czarismo. Principalmente o de 1907, é bom enfatizar que Kuprin foi jornalista, e realmente conheceu um músico de características semelhantes.

xxx

            "Aquando dos pogroms, Sachka andava livremente pelas ruas, com a sua cara engraçada de macaco, bem judia. Não buliam com ele. Tinha uma bravura inabalável de espírito, o destemor do temor, que protege até os fracos melhor do que quaisquer Brownings. Mas uma vez, quando, apertado à parede de um prédio, se desviou de uma multidão, que fluía qual furacão, um pedreiro, de camisa vermelha e avental branco, brandiu o escopro sobre ele e pôs-se a rugir:
              - Ju-deu!Batei neste judeu! Arrancai o seu san-n-gue!
              Mas alguém lhe segurou o braço por trás.
              - Pára, diabo. Este é o Sachka. Deixa-o em paz, seu filho de uma rameira imunda...
              - O pedreiro deteve-se. Naquele absurdo instante de loucura e embriaguez estava disposto a matar quem quer que fosse - o pai, a irmã, o padre, e até o deus mais ortodoxo -, mas também estava disposto a obedecer a qualquer vontade firme.
              Deu um sorriso largo, como um idiota, cuspiu e limpou o nariz com as costas de uma mão. De repente, porém, os seus olhos caíram sobre um cãozinho branco e agitado, que, a tremer, se esfregava na parede, ao pé Sachka. Agachando-se agilmente, ele o agarrou pelas pernas traseiras, levantou-o alto, bateu-lhe com a cabeça na laje da calçada e saiu a correr. Sachka olhou para ele  em silêncio. O homem corria inclinado para a frente, com os braços estendidos, sem gorro, de boca aberta e com os olhos redondos e brancos de loucura.
              Os miolos de Biélotchka, respingaram as botas de Sachka. Ele limpou a mancha com um lenço." Aleksandr Krupin, Cambrino, In: O bracelete de granadas. pp. 103-104

       Destaquei duas passagens curtas feitas por José Honório Rodrigues, as quais foram retiradas do seu ensaio sobre a Revolução de 1930, mas que ao retratarem a política brasileira, parecem atemporais.

         "E isto está sintetizado na famosa frase de Antônio Carlos: ´Façamos a revolução agora, antes que o povo a faça´, o que lembra a de D. João VI ao dizer a D. Pedro:´Ponha a coroa na sua cabeça, antes que algum aventureiro o faça´, posição sempre assumida pelo conservadorismo brasileiro, que teme mais que tudo o seu próprio povo".  O movimento revolucionário de 1930, a situação econômica, social e política, In: História Viva. pág. 88.

         "O povo brasileiro é historicamente um povo derrotado pela minoria dominante". O movimento revolucionário de 1930, a situação econômica, social e política, In: História Viva. pág. 88.