segunda-feira, 9 de outubro de 2017

       "Nos penhascos de Mármore", Ernst Jünger apresenta-nos um espetacular uso da linguagem ao retratar alegoricamente o nazismo, sem deixar de mostrar os seus aspectos mais sombrios. Deveras, justificam-se os elogios de Antônio Cândido a este livro.
"... Depois que ele entrou no celeiro, passamos a ouvir o ruído de pancadas e de raspagem na mesa de esfola, além da cançãozinha que ele continuava a assoviar num tom de jovialidade espectral. Ouvimos então, como se estivesse a acompanhá-lo, o vento perpassar o pinheiral, de modo que os alvos crânios que pendiam das árvores chocalhavam em coro. Ao sopro do vento associavam-se ainda a batida dos tacões do homenzinho e o ruído de atrito das mãos secas na parede do celeiro. O barulho das pancadas e dos crânios que se chocavam lembrava uma encenação de marionetes no reino da morte. Ao mesmo tempo um persistente, pesado e doce cheiro de putrescência pairava no ar e nos fazia estremecer até a medula. Sentíamos como em nosso íntimo a melodia da vida se propagava por sua corda mais profunda e sombria. Mais tarde, não saberíamos dizer por quanto tempo havíamos observado essa cena - talvez não tenha sido mais que um instante. Então, como que despertos, tomamo-nos pelas mãos e corremos para o seio da mata do Corno do Carrasco, enquanto o grito do cuco nos acompanhava desdenhoso. Acabáramos de conhecer a sinistra cozinha da qual partia a névoa que vagava até Marina - uma vez que não arredávamos dali, o velho mostrou-a para nós de um modo relativamente preciso. Tratava-se dos porões sobre os quais se erguem os castelos da tirania e a partir dos quais se vêem evolar as fragrâncias de suas festas: antros fétidos da espécie mais sinistra. Dentro deles, por toda a eternidade, uma canalha abjeta se regozija de modo pavoroso na profanação da dignidade e da liberdade humana. Calam-se então as musas, e a verdade começa a vacilar como a chama exposta aos ventos da tempestade inclemente..."  Nos penhascos de Mármore, páginas 113-114
           "Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível..." Vergílio Ferreira, Aparição.
         "A história é mais complicada, mais complexa, mais ambígua e contraditória do que as filosofias da história tentam nos fazer crer. Para o historiador, que baixa os olhos em direção às asperezas da terra em vez de elevá-los em direção a um céu sem nuvens, a história não tem um fim, um único fim, nem mesmo, em consequência um final. O filósofo da história pode se permitir atuar como profeta, o historiador deve limitar-se a fazer prudentes previsões com base em proposições hipotéticas ´se-então´." Norberto Bobbio, Direita e esquerda.

Campos de Castela de Antonio Machado

          Recomendo a compra do livro, Campos de Castela, de Antonio Machado. Trabalho editorial fundamental da Editora Caminhos.

"É melhor dentre os bons
que sabe que nesta vida
tudo é questão de medida:
subir, baixar semitons..."
                                        Antonio Machado

"Nem tem sabor o fruto
colhido ainda verde...
Nem por louvar-te um burro
tornou-se inteligente."
                                       Antonio Machado
(Provérbios e cantares, retirado do livro, "Campos de Castela", publicado pela Editora Caminhos de Goiânia)


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Coleção Fernando Pessoa pela Editora Tinta da China


             Aos apreciadores da obra de Fernando Pessoa, eis uma coleção primorosa.





"...Que este mundo que nos coube seja o das florestas sombrias, da aridez desabitada - é isso uma certeza que nos não destrói, porque a vida é evidente por si; e ainda que a alegria nos não visite, essa alegria que eu imagino para ti, ficou-nos ao menos a plenitude de ver, de saber iluminadamente, de assumir. A redenção de nós próprios não a procuramos em nada separado de nós, mas na vivência profunda dos nossos inexoráveis limites..." Vergílio Ferreira, Carta ao futuro

Sabato encontra Cioran

            Encontro de Ernesto Sabato com Emil Cioran em Paris, 1989. Ambos com 78 anos na época.
"Conversamos fraternalmente durante mais de quatro horas... Descobri em Cioran a coerência de um homem autêntico, e partilhamos pensamentos de notável semelhança. Como a necessidade de desmistificar o racionalismo que só nos trouxe a miséria e os totalitarismos. E também a imbecilidade dos que crêem no progresso e no avanço da civilização. ´Tudo pode ser sufocado no homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, assim como ao desaparecimento da religião sobre a terra.´Palavras de um filósofo cuja lucidez era fruto de sua perplexidade e seu tormento.
Tenho a convicção de que sua dor metafísica teria se atenuado se ele tivesse podido escrever ficção, dado seu caráter catártico, e porque os graves problemas da condição humana não são aptos para a coerência, mas unicamente acessíveis a essa expressão mitopoética, contraditória e paradoxal, como nossa existência.
´Na tristeza tudo vira alma´, diz ele em um de seus ensaios que tanto ajudaram a desmascarar a frivolidade e os sorrisos hipócritas dos tempos que correm." Ernesto Sabato, Antes do fim. pág. 118