quinta-feira, 11 de maio de 2017

Sobre o livro, "O que é fascismo? E outros ensaios", de George Orwell, são necessárias algumas considerações:
a) Edições que mencionem o termo "fascismo" ganham notoriedade rapidamente e vendem bastante. Daí o afogadilho para publicá-las, e muitas vezes a omissão de certas informações;
b) No caso dessa edição da Cia das Letras, o prefaciador e tradutor, Sérgio Augusto afirma que os textos recolhidos são inéditos no Brasil, e que as outras coletâneas de ensaios de Orwell são todas da referida editora, pelo menos neste século;
c) Na verdade há uma edição de ensaios e resenhas, publicada em 2006 pela Zahar Editores. Aliás, mais ampla que a da Cia das Letras. O título da publicação é "Literatura e Política", na qual podemos encontrar vários ensaios interessantes sobre a guerra em andamento, e algumas resenhas sobre livros importantes do ponto de vista político e literário, tais como: "o caminho da servidão" (Hayek), "Por que a França caiu" (Bernanos), "Flores do Mal" (Baudelaire), entre outros;
d) Então, como tenho muito tempo, coligi as duas edições, e o alentado ineditismo dos 24 textos propalado pelo tradutor e prefacista não se sustenta. Três textos da edição agora lançada pela Cia das Letras constam na edição da Zahar Editores, são eles: "Resenha - O negro do Narciso, Tufão, A Linha de sombra, Dentro das marés, de Joseph Conrad"; "Resenha - A alma do homem sob o socialismo, de Oscar Wilde"; " Resenha - Notas para uma definição de cultura, de T. S. Eliot". Na edição da Zahar Editores, esses três textos receberam os respectivos títulos: "Um homem do mar","A utopia de Oscar Wilde", "A cultura e as classes".
e) Finalmente, é importante ressaltar que os textos sobre o fascismo são inéditos, assim como algumas outras resenhas. É mais uma importante coletânea disponível para os leitores. No entanto, não deixo de considerar que a ligeireza em publicar devido ao tema proporciona certos equívocos.
Num colóquio sobre a obra de Dalton Trevisan na USP, homenageando os seus 90 anos, alguns conferencistas reclamavam da ausência de estudos sobre a obra do autor. E lemos por aí conclamações para que se produzam estudos sobre autoficção juvenil. É preciso o trabalho da linguagem, da escrita, não basta usar palavras ditas "transgressoras" para se fazer boa poesia ou prosa. Segue um exemplo do próprio Trevisan, onde o subentendido exige algo do leitor.
"Afofa os dois travesseiros para ler o jornal, nunca mais abriu um livro. Uma vez por semana, com repugnância e método, entrega-se ao prazer solitário - o mísero consolo do viúvo. Afinal vem o sono, aninha-se nas cobertas e dorme, o eterno grilo debaixo da janela." Dalton Trevisan, conto "Angústia do viúvo", presente no livro, Cemitério de Elefantes. Edição de 1977.

domingo, 23 de abril de 2017

            Melhor faz aquele que carrega um cadáver insepulto dos seus pecados. Pois o seu cheiro fétido é o aviso adequado contra a tentação do discurso virtuoso e a promoção de autos-de-fé.


            Postei recentemente o poema, Táctica y Estrategia, de Mario Benedetti. Agora deixo a versão em português que consta no livro, "O amor, as mulheres e a vida (Antologia de poemas de amor)", publicado no Brasil pela editora Verus,2010. A tradução dos poemas é de Julio Luis Gehlen.

Tática e estratégia
Minha tática é
                                olhar-te
aprender como és
querer-te como és

minha tática é
                                falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

minha tática é 
ficar na tua memória
não sei como          nem sei
com que pretexto
mas ficar em ti

minha tática é
                              ser franco
e saber que és franca
e que não nos vendamos
simulacros
para que entre os dois
não existam véus
                             nem abismos
minha estratégia é
no entanto
mais profunda e mais
                             simples

minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como        nem sei
com que pretexto
por fim                  me necessites.


Mario Benedetti

domingo, 9 de abril de 2017

          Dalton Trevisan é subestimado pela crítica literária, neste domingo, 09 de abril, esse artífice da escrita foi menosprezado quando comparado a Rubem Fonseca. Trevisan seria um provinciano, segundo um crítico da Folha de São Paulo. Trevisan escreve sobre Curitiba no que ela tem de universal, não por acaso hoje fiz a leitura deste texto, e vejo-o como universal, pois tematiza o cotidiano que é comum não só aos paranaenses da capital, mas de todos os brasileiros.


LAMENTAÇÕES DA RUA UBALDINO

...
em vez do culto em surdina
propagas o escândalo sobre os telhados
sons malignos que não se podem aturar
de altíssimos que são
o Senhor dos  Exércitos enviará maldição
aos predadores do sossego
és tu cenobita
atormentador do teu vizinho?
essa igreja central é um estrondo
deixou passar o tempo assinalado
morada de dragões
matracas e baitacas
onde o fiscal?
onde a lei do silêncio?
onde o que conta os decibéis?
o inimigo da Rua Ubaldino
nesse mesmo número 666
uiva baterista clama guitarrista 
rebolai-vos no pó da danação
à tua porta já batem as duas ursas
chamadas por Elias
cala-te aquieta-te irmão cenobita
afasta de nós esse cálice da balbúrdia
e da aflição do espírito
casa de oração convertida em covil
de salteadores da paz
não o pão
mas a pedra dodecafônica
não o peixe
mas a serpente da caixa de ressonância
não o ovo
mas o escorpião do amplificador
amigo a que vieste?
mais fácil passar um camelo
pelo fundo da agulha
do que entrar um guitarrista cenobita
no reino de Deus
dura é essa barulheira
quem a pode suportar?
filhos da Rua Ubaldino chorai
sobre o fim da paz e do sossego
ah! espado do Senhor
até quando descansarás na tua bainha?


Dalton Trevisan


sábado, 1 de abril de 2017

Realização e angústia

              "Ao passo que o homem, ao se levantar sobre as patas traseiras e transformar em machado a primeira pedra lascada, instituiu as bases de sua grandeza mas também as origens de sua angústia; pois com suas mãos e com os instrumentos feitos com suas mãos ele viria a erigir essa construção tão poderosa e estranha chamada cultura, iniciando assim seu grande drama: deixará de ser um simples animal, mas nunca chegará a ser o deus que seu espírito sugere. Será esse ser dual e desgraçado que se move e vive entre a terra dos animais e o céu de seus deuses, que terá  perdido o paraíso terrestre de sua inocência sem ganhar o paraíso de sua redenção." Ernesto Sabato, A resistência. pág. 78

sexta-feira, 31 de março de 2017

             Mário de Andrade em resenha sobre o livro, O Quinze, de Rachel de Queiroz, fez uma crítica muito interessante e atemporal quanto a certa romantização da miséria humana. Romantização literária que esvazia o sofrimento humano, ao invés de denunciá-lo. A resenha foi escrita em 1930, e depois compilada no livro, Táxi e crônicas no Diário Nacional.

“... O defeito da arte é mesmo transportar os maiores horrores da humanidade e da Terra pra um plano hedonístico, tão contemplativo e necessariamente diletante, que a gente está chorando na leitura e não sofre nada. Chora que é uma gostosura. As dores de fundamento estético, por mais suicídios que tenha causado o Werther, não fazem mal pra ninguém. Pelo contrário: desvirtuam a nossa humanidade, literatizam nossos deveres humanos que em vez de se tornarem ativos e eficientes, se desmancham nas misérias das frases bonitas, na recordação das obras de arte e em piedades oratórias. Estou convencido que o livro de Euclides fez um mal enorme pros brasileiros e dificultou vastamente o problema das secas. Fez da seca uma obra de arte, e nós adquirimos, por causa dele, uma noção tangencial dos nossos deveres pra com o Nordeste, uma noção derivada, quase que de função puramente literária. A seca virou bonita e nos nossos deveres, a própria consciência dos nossos deveres, ficaram bonitos também. Quase existe dentro de nós uma razão importantíssima e jamais expressa:  Deixem a seca como está porque se o problema dela for resolvido, o brasileiro perde a mais bonita razão pros seus lamentos e digressões caritativas. Desconfio que nenhum brasileiro terá coragem de confessar a desumanização de origem artística causada nele pela maravilhosa literatice de Euclides da Cunha, mas, queiram ou não queiram, os fatos estão aí provando esta afirmativa urtigante...”  Retirado da fortuna crítica ao livro, O Quinze, de Rachel de Queiroz, 105 ed. p.172-173