terça-feira, 10 de janeiro de 2017

No Brasil não há mudança, apenas atualização do que era ruim para algo pior.

        Há um conto de Machado de Assis, "O velho Senado", que não é bem um conto, onde ele apresenta um perfil das ilustres figuras que discursavam naquela casa. No seu texto Machado fala das grandezas, e sutilmente das misérias dos nossos senadores que ocupavam a casa: os Nabucos, os Bocaiuvas, os Otoni, os Paranhos, os Sousa Franco, etc. Alguns que adoravam recitar trechos literários, outros que acompanhavam os discursos alheios com um dicionário à mão. Nos informamos que os roubos de células eleitorais não foram invenção da República, já ocorriam nas eleições durante a Monarquia; assim como concluímos que a falta de coerência e programa é característica antiga dos nossos partidos, aliás o único programa admitido por eles é dar golpes e se manterem no poder, interpretando a Constituição conforme suas vontades. Talvez eles tivessem mais estilo.
"...os partidos nunca se entenderam bem acerca das causas imediatas da própria queda ou subida, salvo no ponto de serem alternadamente a violação ou a restauração da carta constitucional..." Machado de Assis, "O velho Senado", (o conto consta na coletânea, "Páginas recolhidas")

Belo documentário sobre a obra e vida de Lêdo Ivo


"O meu bárbaro pensamento é este: um homem, uma mulher, dois meninos e um cachorro, dentro de uma cozinha, podem representar muito bem a humanidade. E ficarei nisto, enquanto não me provarem que os arranha-céus têm alma." Graciliano Ramos, "Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos.."

Os conservadores de outra época tinham estilo


      Para alguns tudo é linguagem. Concordando com eles temos que admitir que os novos conservadores brasileiros no meio intelectual são paupérrimos em termos de linguagem, o seu principal representante não consegue formular uma frase sem o termo "piroca". O Ministro da Educação é aconselhado por um ex-ator pornô, cujo exercício linguístico não ultrapassa uma sentença com três palavras. Agora temos um deputado preocupado com a masturbação alheia.
          A idealização do passado é um dos pecados mortais para um historiador, mas de uma coisa eu tenho certeza os conservadores brasileiros já foram melhores, até na tematização de questões morais que envolviam o sexo eles promoviam um verdadeiro banquete estético-literário.

           Como exemplo segue um trecho do romance, "Sob o malicioso olhar dos trópicos (1929)", de João Barretto Filho:

"- O seio de uma mulher que não é sua, dizia aquele amigo, é apenas um motivo de excitação, que você utiliza unicamente nesse fim; na hipótese mais espiritual poderá ser uma visão de pura estética, uma admiração pagã pela forma perfeita, mas é só isso. Não se pode comparar com o profundo respeito pela glândula nutritiva que alimenta o seu filho.
- E quando não existe o filho? tinha perguntado André vivamente.
- O filho já existe desde o primeiro olhar, e ainda para os que esperam até o fim da vida, ele esteve sempre presente" (p.116).

domingo, 1 de janeiro de 2017

Alguns trechos de "A Estrada", Jack London.



"...Oh, vocês que vivem pregando a caridade! Aprendam com os pobres, pois apenas eles são generosos. Não dão sobras porque não as têm. Nunca regateiam o que possuem. Muitas vezes dão o pouco que podem, mesmo estando, eles próprios, muito necessitados. Jogar um osso a um cachorro não é caridade. Caridade é compartilhar o osso com o cão quando você está com tanta fome quanto ele." A estrada, Jack London, pág. 27


"O vagabundo de sucesso deve ser um artista. Precisa criar, de forma espontânea e instantânea (sem recorrer a algum tema tirado da própria imaginação), uma narrativa sobre algo que vê no rosto de quem abre a porta, seja homem, mulher ou criança, simpático ou antipático, generoso ou sovina, bondoso ou perverso, judeu ou pagão, negro ou branco, racista ou fraternal, provinciano ou cosmopolita, ou qualquer outra coisa. Muitas vezes, penso que devo o meu sucesso como escritor a esse treinamento dos meus dias de vagabundo. Para conseguir um prato de comida, me via obrigado a contar histórias que soassem verdadeiras. Na porta dos fundos, por uma necessidade inexorável, se desenvolve um poder de convicção e sinceridade equiparável àquele das maiores autoridades na arte de contar histórias. Também acredito que foi meu aprendizado na indigência que me tornou um realista. O realismo é a única coisa que se pode trocar na porta da cozinha por um prato de comida.
Afinal, a arte não é nada mais que um artifício consumado, e o artifício dá credibilidade a muitas ´histórias´..." Jack London, A Estrada, p.30-31
"Que importa onde se eu o mesmo for,
Ou o que seja, logo que não seja
Inferior ao que deu fama ao trovão?
Aqui seremos livres; o magnânimo
Não alço cá a inveja, nem daqui
Nos levará. A salvo reinaremos,
Que é digna ambição mesmo se no inferno:
Melhor reinar no inferno que no Céu
Servir. Mas por que deixarmos amigos,
Os sócios e parceiros da falência,
No lago do letargo aturdidos,
E não os chamar a dividir parte
Nesta infeliz mansão; ou uma vez
São os braços malsãos, tentar ainda
O Céu reaver, ou mais perder no inferno?"


Paraíso perdido, John Milton, pág. 55 (Editora 34)
"Todos os beijos que não demos e os que não recebemos, os sorrisos que não nos deram e a timidez de nossos amores não reforçaram e selaram nossas solidões? Tantas recusas da vida não fizeram de nós lutadores exaltados? E, quando nós próprios recusamos, não o fizemos com o orgulho e a esperança de outros triunfos? Onde está a origem de nossas solidões senão em um amor que não pôde transbordar e que alimenta todas essas solidões, em todo esse amor preso em nós? Todo nosso desejo pelo absoluto, por tornar-nos deuses, demônios ou loucos, toda a vertigem engendrada pela busca de outras eternidades e a sede de mundos infinitos não nasceram de tantos e tantos sorrisos, abraços e beijos que não compartilhamos e que nos são desconhecidos? Não estamos buscando o todo, por que perdemos algo? Um único ser poderia salvar-nos do caminho em direção ao nada. Somos tantos os que perderam o individual, a existência, que nossas solidões crescem sem raízes, como as algas abandonadas à mercê das ondas. Mas nossas solidões, nutridas por tantos amores insatisfeitos, são bastante fortes para sustentar nosso impulso na direção de outros mundos e de outras eternidades." O livro das ilusões, Emil Cioran. p. 41