domingo, 1 de janeiro de 2017

Artigo de Jacó Guinsburg sobre o livro, Vida e Destino

                Já comentei aqui sobre a importância do livro, Vida e Destino, de Vassíli Grossman. E como o respeitável Jacó Guinsburg colocou, não é possível fazer paralelos com outras obras, as suas descrições dos campos de concentração nazistas por onde passou são impressionantes, extrapolam e muito pela riqueza e sensibilidade as obras de Primo Levi. Para aqueles que pensam ser um exagero, peço que leiam o seu catatau de 900 páginas. Por ali verás não só descrições da guerra, mas uma importante reflexão sobre a vida em sua totalidade.

"Krímov tinha vontade de intervir naconversa, de dizer que entre os alemães mortos por Bulátov podia haver trabalhadores, revolucionários, internacionalistas... Era necessário entender esse ponto para não se converter em nacionalista radical. Mas Nikolai Grigórievitch ficou calado. Essas ideias não eram necessárias durante a guerra; elas não armavam, desarmavam." p. 246-247

"...A respeito dos acontecimentos de 1937, ele disse a Ievguênia Nikoláievna: ´Não é horrível quando exterminamos os inimigos: que eles vão para o diabo! O horrível é quando atiramos nos nossos´." p. 247

" - Não é possível guiar as pessoas como se fossem ovelhas, e mesmo Lênin, que era inteligente, não entendeu isso. A revolução é feita para que ninguém mais guie as pessoas. Mas Lênin disse: ´Antes vocês eram guiados de forma estúpida, e eu vou guiá-los de forma inteligente´" p.276

           O polêmico Monteiro Lobato em uma de suas últimas entrevistas (maio de 1945):

"- Sou uma múmia falante. Uma múmia ambulante. E meu epitáfio é este: 'Aqui jaz um homem que nunca leu a Brasiliana nem ouviu a Hora do Brasil´.
- Por que essa ojeriza contra a Brasiliana?
- Porque me parece covardia escrever-se tanto sobre o passado. A única atitude que admito dentro duma infame ditadura é o mutismo - o mais absoluto mutismo. Ninguém escrever sobre coisa nenhuma, em vez da evasão que escrever sobre o passado.
E virando-se para o repórter:
- Uma coisa que sempre desejei fazer e até agora não pude era dirigir um apelo ao Brasil, ao povo brasileiro. Quem sabe se o seu jornal se dispõe a veicular minhas palavras? PROPONHO QUE TODOS NO BRASIL NOS SUICIDEMOS NO MESMO DIA E FIQUEMOS, OS QUARENTA MILHÕES QUE SOMOS, FEDENDO NO NARIZ DA DITADURA..."

domingo, 6 de novembro de 2016

Um recital de latidos em Almas Mortas

            Nesta bela passagem, Gógol narra a chegada de Tchítchicov a sede de uma pequena propriedade onde é recebido por um coral de cachorros.

            "A porteira se abriu. Uma luz brilhou em outra janela. A sege, entrando no pátio, parou diante de uma casa pequena, que mal se podia divisar naquela escuridão. Apenas metade da casinha estava iluminada pela luz que saía das janelas; via-se ainda uma poça de água na frente da casa, na qual a luz se refletia diretamente. A chuva tamborilava sonoramente no telhado de madeira e escorria em borbotões murmurantes para dentro de um barril ali colocado para recolhê-la. Enquanto isso, a cachorrada se esmerava, latindo em todos os diapasões imagináveis: um, atirando para trás a cabeça, soltava um latido tão prolongado e caprichado, como se recebesse um alto ordenado para fazê-lo; outro ladrava aos arrancos, como um sacristão; entre os dois soava, como um sininho postal, um soprano infatigável, que devia pertencer a um cãozinho novo, e tudo isso, finalmente, era arrematado por um ladrar baixo-profundo, quiçá  de um velhote de robusta natureza canina, porque rouquejava, como costuma rouquejar o contrabaixo coral, quando o recital está em pleno andamento: os tenores se esticam na ponta dos pés, no afã de alcançar as notas altas, e todos os mais se esforçam para cima, revirando a cabeça, e só ele, afundando o queixo mal-escanhoado no colarinho, encolhendo-se e abaixando-se quase até o chão, dali solta a sua nota, que faz tremer e vibrar as vidraças. Já por esse recital de latidos,constituído de tais vocalistas, poder-se-ia supor que a aldeia não era das piores..." Almas Mortas, Gógol. pág. 76

domingo, 30 de outubro de 2016

"E depois a gente rica não gosta de ouvir os pobres se queixando da sua má sorte - dizem que incomodam, que são impertinentes! A pobreza é sempre impertinente mesmo - talvez porque seus gemidos famintos lhes perturbem o sono!" Gente Pobre, Dostoiévski, pág. 138
         Minha homenagem ao "velho Graça", talvez um "russo" em terras tupiniquins...
"Não há opinião pública: há pedaços de opinião, contraditórios. Uns deles estariam do meu lado se eu matasse Julião Tavares, outros estariam contra mim. No júri metade dos juízes de fato lançaria na urna a bola branca, metade lançaria a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opinião. Inútil esperar unanimidade. Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos." Angústia, Graciliano Ramos
         Brasil e Rússia, dois irmãos separados por um oceano e milhares de quilômetros de terra. Aqui Gógol teria o mesmo final que teve na Rússia, procuraria uma solução mística, pois querer compreender a realidade brasileira deixa qualquer um perturbado.
          Ou nas palavras de um personagem dostoievskiano ...
"...Entretanto, era como se tudo contribuísse para a impressão má e desagradável, em suma, uma coisa puxa outra; de tudo depreendemos algo que se assemelha à nossa situação, e é sempre assim que acontece..." Makar Alieksiêievitch, Gente Pobre, Dostoiévski.
        Dostoiévski foi preso em 1849, juntamente com todo o círculo de Petrachévski, jovens intelectuais, estudantes e escritores. Na época reuniam-se para discutir os problemas sociais da Rússia, principalmente o fim da servidão. Uma das medidas adotadas pelo ministro da Educação da época foi abolir o ensino de filosofia e metafísica das universidades russas, "... e os cursos de lógica e de psicologia foram entregues a professores de teologia..". Nicolau I era o czar no período. (Dostoiévski, os anos de provação. Joseph Frank, pág. 25.)