segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Um pouco de sobriedade sobre o fenômeno religioso

"O que propõe uma fé nova é perseguido, na espera de que chegue a ser, por sua vez, perseguidor: as verdades começam por um conflito com a polícia e terminam por apoiar-se nela; pois todo absurdo pelo qual se sofreu degenera em legalidade, como todo martírio desemboca nos parágrafos de um código, na insipidez do calendário ou na nomenclatura das ruas. Neste mundo, até o próprio céu se torna autoridade; e houve períodos que só viveram para ele, Idades Médias mais pródigas em guerras que as épocas mais dissolutas, cruzadas bestiais, falsamente revestidas de sublimidade, ante as quais as invasões dos Hunos parecem travessuras de hordas decadentes." Emil Cioran, Breviário de Decomposição. p. 82

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A quem serve aquele que carrega o ódio nos olhos

           No conto, Cambrino, Aleksandr Ivánovitch Kuprin relata em uma passagem muito pertinente como aquele que na multidão dos que estão encolerizados, pode ser usado para os fins mais odientos e irracionais. O conto trata de uma cervejaria e de seu ilustre músico judeu, Sachka, que foi perseguido de várias formas e em diferentes momentos, inclusive nos pogroms ocorridos durante o czarismo. Principalmente o de 1907, é bom enfatizar que Kuprin foi jornalista, e realmente conheceu um músico de características semelhantes.

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            "Aquando dos pogroms, Sachka andava livremente pelas ruas, com a sua cara engraçada de macaco, bem judia. Não buliam com ele. Tinha uma bravura inabalável de espírito, o destemor do temor, que protege até os fracos melhor do que quaisquer Brownings. Mas uma vez, quando, apertado à parede de um prédio, se desviou de uma multidão, que fluía qual furacão, um pedreiro, de camisa vermelha e avental branco, brandiu o escopro sobre ele e pôs-se a rugir:
              - Ju-deu!Batei neste judeu! Arrancai o seu san-n-gue!
              Mas alguém lhe segurou o braço por trás.
              - Pára, diabo. Este é o Sachka. Deixa-o em paz, seu filho de uma rameira imunda...
              - O pedreiro deteve-se. Naquele absurdo instante de loucura e embriaguez estava disposto a matar quem quer que fosse - o pai, a irmã, o padre, e até o deus mais ortodoxo -, mas também estava disposto a obedecer a qualquer vontade firme.
              Deu um sorriso largo, como um idiota, cuspiu e limpou o nariz com as costas de uma mão. De repente, porém, os seus olhos caíram sobre um cãozinho branco e agitado, que, a tremer, se esfregava na parede, ao pé Sachka. Agachando-se agilmente, ele o agarrou pelas pernas traseiras, levantou-o alto, bateu-lhe com a cabeça na laje da calçada e saiu a correr. Sachka olhou para ele  em silêncio. O homem corria inclinado para a frente, com os braços estendidos, sem gorro, de boca aberta e com os olhos redondos e brancos de loucura.
              Os miolos de Biélotchka, respingaram as botas de Sachka. Ele limpou a mancha com um lenço." Aleksandr Krupin, Cambrino, In: O bracelete de granadas. pp. 103-104

       Destaquei duas passagens curtas feitas por José Honório Rodrigues, as quais foram retiradas do seu ensaio sobre a Revolução de 1930, mas que ao retratarem a política brasileira, parecem atemporais.

         "E isto está sintetizado na famosa frase de Antônio Carlos: ´Façamos a revolução agora, antes que o povo a faça´, o que lembra a de D. João VI ao dizer a D. Pedro:´Ponha a coroa na sua cabeça, antes que algum aventureiro o faça´, posição sempre assumida pelo conservadorismo brasileiro, que teme mais que tudo o seu próprio povo".  O movimento revolucionário de 1930, a situação econômica, social e política, In: História Viva. pág. 88.

         "O povo brasileiro é historicamente um povo derrotado pela minoria dominante". O movimento revolucionário de 1930, a situação econômica, social e política, In: História Viva. pág. 88.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A felicidade

"...Ah, então temos mais um sábio? Ora, ora. Achega-te... Não saberias em que está a felicidade?
          O sábio - e ele era um verdadeiro sábio - respondeu:
- A felicidade está no esplendor do pensamento humano.
O soberano  teve um estremecimento de sobrancelhas e entro a gritar, colérico:
- Ora! O pensamento humano! Que é o pensamento humano?
O sábio - pois ele era um verdadeiro sábio - apenas sorriu, compadecido.
Então, o imperador ordenou que o atirassem à masmorra, onde havia escuridão eterna e não penetrava  nenhum som de fora. Um ano depois, conduziram a ele o cativo, que ficara cego e surdo e mal se aguentava em pé.
- Então? Ainda és feliz agora?
O sábio respondeu tranquilamente:
- Sim sou feliz. Na prisão, fui imperador, dono de tesouros, amei, tive mesa farta, passei fome, e tudo isso me foi dado pelo meu pensamento.
- Mas que é o pensamento ?! - exclamou o monarca com impaciência - Pois fica a saber que, daqui a cinco minutos, eu te enforcarei e cuspirei no teu rosto maldito! Então, ainda te consolará o teu pensamento? Onde estarão, então, os pensamentos, que desperdiçaste pelo mundo?
O sábio respondeu-lhe tranquilamente, pois era um verdadeiro sábio:
- Parvo! O pensamento é imortal."

                                                  Aleksandr Ivánovitch Kuprin, "A felicidade". O bracelete de granadas. pp. 37-38.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

       Diálogo entre Díaz Grey, e o incorruptível Euclides Barthé, no qual se negocia a aprovação de uma concessão/"terceirização" de um porto municipal. Em troca, os vereadores conservadores aprovariam a legalização de um prostíbulo. Obviamente trata-se de uma peça ficcional, escrita por um uruguaio.
"Sem precisar olhar, Diáz Grey via a pequena boca rosada, saliente e incorruptível.
- Ele me disse que não se tratava de concessão do porto. Apenas do serviço dos carregadores.
- Nunca - bufou Barthé; sorria no martírio. - Dá lucro. Vai ser um desserviço à comunidade. Talvez esteja desorganizado, mas dá lucro, e pertence ao povo. E, mesmo que não fosse assim, os serviços públicos devem ser administrados pela comunidade, socializados.
- Está certo. Vou dizer pro Arcelo
...
- Bom, estou com pressa. Estão me esperando no consultório e tenho duas visitas na Colônia. Eu me comprometi com o Arcelo a transmitir a proposta ao senhor. Os conservadores querem o seu voto para a concessão dos carregadores. Se o senhor votar a favor, eles se comprometem a aprovar o projeto do prostíbulo. Entendido?
...
- Entendido? - repetiu Díaz Grey. - E tem mais. Eles se dispõem a favor do prostíbulo, antes, quando o senhor indicar, em troca da sua palavra de que mais adiante irá votar a concessão dos carregadores..."
Juan Carlos Onetti. Junta-cadáveres. 

O nosso "eterno" presente. Palavras de Sílvio Romero.


"Na sua ingênua ignorância, as massas, por outro lado, procuram sempre uma cabeça de turco, uma espécie de bode expiatório, a quem culpam de todas as suas desgraças.
Cada período histórico tem, neste sentido, suas vítimas prediletas.
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É um fato positivo, claro, evidentíssimo, por todos reconhecido e proclamado, que as três classes que têm mais de perto dirigido a vida mental e pública do povo brasileiro - OS POLÍTICOS, OS JORNALISTAS E OS LITERATOS, levaram-na a um tal grau de confusão, pessimismo e desânimo, que nem eles mesmos tomam mais pé no meio dos desatinos que acumularam.
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O câmbio, a hiperprodução do café, as especulações dos bancos estrangeiros, a queda da Monarquia, o militarismo, regímen presidencial, os despotismos oligárquicos dos estados, os gastos supérfluos dos governos, os desfalques nas repartições públicas, a pluralidade de magistraturas, os impostos interestaduais, a falsidade das eleições, os defeituosos programas e métodos do ensino público, a falta de confiança em o novo regímen, a revolta da Armada, a do Rio Grande, a de Canudos... todas essas coisas e outras muitas, têm sido invocadas como causas de nossos males
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Bolsa do café ou monopólio das vendas pelo estado, criação de bancos de crédito agrícola, supressão dos impostos interestaduais, unificação da magistratura, reforma do ensino, reforma da Constituição Federal (aqui variam imensamente as opiniões acerca das bases a propor), restauração da monarquia e ATÉ A DITADURA MILITAR, RECLAMADA EM ALTAS VOZES DAS COLUNAS DE VÁRIOS JORNAIS E ATÉ DA TRIBUNA DO CONGRESSO FEDERAL... todas estas coisas têm sido simultânea ou sucessivamente invocadas como antídoto à enfermidade que nos devora.
Houve até político, literato, jornalista, tido na conta de grande sabedor, que, com todo o desembaraço, nos aconselhou a renúncia da independência e a submissão ao protetorado dos Estados Unidos..
TÃO PROFUNDA É A INCAPACIDADE DESSES LEVIANOS DIRETORES DA OPINIÃO BRASILEIRA!"
O Brasil na primeira década do século XX [1910-1911], Sílvio Romero, pp.106-107.

UM LUGAR-COMUM INVERTIDO




          Se há uma certeza que podemos deduzir das discussões e troca de ofensas em relação a política atual é que elas bem se encaixam na expressão proferida por Bazárov, o niilista de Pais e Filhos, do grande escritor russo Turguêniev.
" - Não existem brigas por mesquinharias para o homem que não quiser dar importância a elas.
- Hm... isso que você disse é um lugar-comum invertido.
- Como? O que você entende por essa expressão?
- É o seguinte: dizer, por exemplo, que a instrução é perniciosa constitui um lugar-comum invertido. Parece mais sofisticado, mas no fundo é a mesma coisa..." Ivan Turgueniêv,Pais e Filhos. p.194.

            O importante comunista italiano, Antonio Gramsci, numa pequena nota dos Cadernos do Cárcere, destacou a passagem de Bazárov justamente para exemplificar o simplismo dos debates políticos na Itália de sua época.
"... Para muitos, ser ´original´ significa apenas inverter os lugares-comuns dominantes numa certa época: para muitos, este exercício é o máximo da elegância e do esnobismo intelectual e moral. Mas o lugar-comum invertido permanece sempre um lugar-comum, uma banalidade. O lugar-comum invertido talvez seja ainda mais banal do que o simples lugar-comum. O bohémien é mais filisteu que o comerciante interiorano. Daí aquele sentimento de tédio que advém da frequência de certos círculos que se acreditam de exceção, que se apresentam como uma aristocracia distanciada da vida ordinária. O democrata é maçante, mas muito mais o é o autoproclamado reacionário que exalta o carrasco e, quem sabe as fogueiras..." Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere, vol.4. p. 141
Como se vê, não importa a época, ou o local, o lugar-comum invertido continua dominando as discussões.