"Vários ingleses que se deixaram enganar por um guia do leste do Tirol e, em companhia dele, subiram aos Três Picosde Lavaredo, ficaram tão decepcionados com o espetáculo oferecido pela natureza quando alcançaram o mais alto dos três picos que, ali mesmo, e sem demora, surraram até a morte o tal guia, um pai de família com três filhos e, ao que consta, casado com uma mulher surda. Quando, porém, se deram conta do que haviam feito, precipitaram-se, um após o outro, no abismo. Um jornal de Birmingham noticiou na sequência que a cidade tinha perdido seu mais destacado editor e proprietário de jornal, seu mais extraordinário diretor de banco e seu melhor agente funerário." THOMAS BERNHARD
domingo, 13 de novembro de 2011
LOUCURA
Em Lend, foi suspenso um carteiro que, durante anos, em vez de entregar cartas que suspeitasse portadoras de notícias ruins, e naturalmente de anúncios fúnebres também, as levava para casa e queimava. O correio, por fim, mandou interná-lo no manicômio de Scherrnberg, por onde ele circula em uniforme de carteiro e entrega sem parar aos demais pacientes as cartasa eles endereçadas que a administração do manicômio joga numa caixa de correio afixada para essa finalidade num dos muros da instituição. Conta-se que, assim que foi internado no manicômio de Scherrnberg, o carteiro solicitou seu uniforme, para não ter de enlouquecer.
Thomas Bernhard
Thomas Bernhard
"Cultura do Narcisismo" (1979) de Christopher Lasch
"[...] De acordo com um estudo sobre educação geral em Columbia, os professores perderam 'seu senso comum sobre que tipo de ignorância é inaceitável'. Como resultado: 'Os estudantes, ao ler a descrição de Rabelais sobre distúrbios civis, atribuem-nos à Revolução Francesa. Uma classe de vinte e cinco nunca ouvira falar de complexo de Édipo - ou de Édipo. Somente um aluno em uma classe de quinze pode atribuir uma data à Revolução Russa no espaço de uma década."
MELHOR AINDA É O TÍTULO DO CAPÍTULO "A EDUCAÇÃO ESCOLAR E O NOVO ANALFABETISMO"
MELHOR AINDA É O TÍTULO DO CAPÍTULO "A EDUCAÇÃO ESCOLAR E O NOVO ANALFABETISMO"
Arendt sobre os amigos que levamos para os outros
Levamos pessoas para a vida daqueles que gostamos, e depois queremos controlar essas amizades. Interessante trecho de uma carta de Hannah Arendt, um boa reflexão:
"Quando Mary McCarthy se mostrou incomodada por Hannah Arendt continuar a manter um relacionamento amigável com Bowden Broadwater, o marido abandonado por McCarthy, Arendt a censurou: " O fato é que você o trouxe para minha vida, sem você ele nunca teria se tornado amigo da família - não amigo pessoal, o que ele não é, claro - por assim dizer. Mas, uma vez que você o trouxe, não pode simplesmente expulsá-lo de onde está agora. Enquanto ele não fizer algo realmente revoltante, o que não ocorreu até o momento, ou se voltar contra você, o que tampouco fez, não pretendo proferir julgamentos [...] Você diz para não confiar nele. Talvez tenha razão, talvez não tenha, eu não faço a menor ideia. Mas chama a minha atenção que tenha esquecido com tanta facilidade que confiou nele o suficiente para passar 15 anos casada com ele.""
Episódio vivido pelo velho Bob D.
Julho de 2009
"Um senhor mal-arrumado, com comportamento suspeito" é recolhido pela polícia de Nova Jersey. Era Dylan, que estaria procurando a casa da infância de Bruce Springsteen - mas o policial de 22 anos, Kirstie Buble, leva o "senhor com aparência excêntrica" para um interrogatório na delegacia."
domingo, 13 de fevereiro de 2011
MILTON SOBRE EXCEÇÕES OU COMPORTAMENTOS PADRÕES?
As sábias palavras de Milton que serão transcritas abaixo, talvez foram proferidas para exortar comportamentos desviantes da norma. Penso que sim, porém diante da realidade que vivemos hoje, observando evangélicos - pentecostais ou neopentecostais - percebemos o quanto às palavras de Milton exortariam a maioria dos religiosos.
Max Weber pode ter constatado o quanto a ética religiosa protestante orientou a vida cotidiana dos fiéis no início da modernidade ocidental. Porém, se analisarmos hoje, o quanto a vida cotidiana dos fiéis é orientada eticamente ficaremos pasmos, aliás, a ética dos fiéis se assemelha a ética dos seus guias espirituais.
John Milton foi um dos principais escritores ingleses do século XVII. Como poeta nos legou o clássico, O Paraíso Perdido. Também foi teólogo e político. O trecho que reproduzido abaixo foi retirado do livro: Areopagítica, Discurso pela liberdade de imprensa ao parlamento da Inglaterra. Editado no Brasil pela Topbooks com tradução bilíngüe de Raul de Sá Barbosa, 1999.
***
“(...) Um homem rico, apegado a seus prazeres e a seus lucros, vê a religião como um tráfico tão emaranhado e de contas tão pormenorizadas que, de todos os segredos do negócio, ele não consegue recompor a contento o seu estoque. Que fazer? Agrada-lhe a fama de ser homem piedoso e temente a Deus, agrada-lhe igualar-se, nesse particular, aos seus vizinhos. Em conseqüência, desiste de trabalhar e procura encontrar alguém a quem possa entregar o governo da sua vida religiosa. Um clérigo de fama é o ideal. A essa figura ele adere, entrega-lhe toda a parafernália da sua religião, com as chaves de todas as fechaduras e cadeados. A rigor, ele faz dessa pessoa a sua religião. Entende que a simples associação com ela é prova cabal e suficiente da própria piedade. Assim, esse homem poderá dizer que sua religião já não está no seu íntimo, mas tornou-se como que um bem móvel, dotado da faculdade de ir e vir perto dele, ao sabor das visitas do santo, que lhe freqüenta a casa. Ele o recebe, festeja-o, presenteia-o, hospeda-o. Sua religião volta para casa à noite, reza, ceia lautamente, e é posta para dormir. De manhã, levanta-se, é saudada e prova da malvasia que lhe oferecem, ou toma alguma beberagem aromatizada. Fica melhor alimentado do que aquele cujo apetite se daria por satisfeito se comesse alguns figos verdes entre Betânia e Jerusalém. Sua religião sai às oito horas e deixa seu amável anfitrião na loja, negociando o dia todo sem sua religião.” (páginas 143-145)
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