domingo, 13 de novembro de 2011

LOUCURA


Em Lend, foi suspenso um carteiro que, durante anos, em vez de entregar cartas que suspeitasse portadoras de notícias ruins, e naturalmente de anúncios fúnebres também, as levava para casa e queimava. O correio, por fim, mandou interná-lo no manicômio de Scherrnberg, por onde ele circula em uniforme de carteiro e entrega sem parar aos demais pacientes as cartasa eles endereçadas que a administração do manicômio joga numa caixa de correio afixada para essa finalidade num dos muros da instituição. Conta-se que, assim que foi internado no manicômio de Scherrnberg, o carteiro solicitou seu uniforme, para não ter de enlouquecer.
Thomas Bernhard
Que papo é esse de virtude e vício?
O mal me impele, e a reforma do mal me impele ... fico indiferente,
Meu andar não é de alguém que só critica ou rejeita,
Rego as raízes de tudo o que grassou."

Walt Whitman

"Cultura do Narcisismo" (1979) de Christopher Lasch



"[...] De acordo com um estudo sobre educação geral em Columbia, os professores perderam 'seu senso comum sobre que tipo de ignorância é inaceitável'. Como resultado: 'Os estudantes, ao ler a descrição de Rabelais sobre distúrbios civis, atribuem-nos à Revolução Francesa. Uma classe de vinte e cinco nunca ouvira falar de complexo de Édipo - ou de Édipo. Somente um aluno em uma classe de quinze pode atribuir uma data à Revolução Russa no espaço de uma década."

MELHOR AINDA É O TÍTULO DO CAPÍTULO "A EDUCAÇÃO ESCOLAR E O NOVO ANALFABETISMO"

Arendt sobre os amigos que levamos para os outros

Levamos pessoas para a vida daqueles que gostamos, e depois queremos controlar essas amizades. Interessante trecho de uma carta de Hannah Arendt, um boa reflexão:

"Quando Mary McCarthy se mostrou incomodada por Hannah Arendt continuar a manter um relacionamento amigável com Bowden Broadwater, o marido abandonado por McCarthy, Arendt a censurou: " O fato é que você o trouxe para minha vida, sem você ele nunca teria se tornado amigo da família - não amigo pessoal, o que ele não é, claro - por assim dizer. Mas, uma vez que você o trouxe, não pode simplesmente expulsá-lo de onde está agora. Enquanto ele não fizer algo realmente revoltante, o que não ocorreu até o momento, ou se voltar contra você, o que tampouco fez, não pretendo proferir julgamentos [...] Você diz para não confiar nele. Talvez tenha razão, talvez não tenha, eu não faço a menor ideia. Mas chama a minha atenção que tenha esquecido com tanta facilidade que confiou nele o suficiente para passar 15 anos casada com ele.""

Episódio vivido pelo velho Bob D.



Julho de 2009

"Um senhor mal-arrumado, com comportamento suspeito" é recolhido pela polícia de Nova Jersey. Era Dylan, que estaria procurando a casa da infância de Bruce Springsteen - mas o policial de 22 anos, Kirstie Buble, leva o "senhor com aparência excêntrica" para um interrogatório na delegacia."

domingo, 13 de fevereiro de 2011

MILTON SOBRE EXCEÇÕES OU COMPORTAMENTOS PADRÕES?


As sábias palavras de Milton que serão transcritas abaixo, talvez foram proferidas para exortar comportamentos desviantes da norma. Penso que sim, porém diante da realidade que vivemos hoje, observando evangélicos - pentecostais ou neopentecostais - percebemos o quanto às palavras de Milton exortariam a maioria dos religiosos.


Max Weber pode ter constatado o quanto a ética religiosa protestante orientou a vida cotidiana dos fiéis no início da modernidade ocidental. Porém, se analisarmos hoje, o quanto a vida cotidiana dos fiéis é orientada eticamente ficaremos pasmos, aliás, a ética dos fiéis se assemelha a ética dos seus guias espirituais.


John Milton foi um dos principais escritores ingleses do século XVII. Como poeta nos legou o clássico, O Paraíso Perdido. Também foi teólogo e político. O trecho que reproduzido abaixo foi retirado do livro: Areopagítica, Discurso pela liberdade de imprensa ao parlamento da Inglaterra. Editado no Brasil pela Topbooks com tradução bilíngüe de Raul de Sá Barbosa, 1999.

***

“(...) Um homem rico, apegado a seus prazeres e a seus lucros, vê a religião como um tráfico tão emaranhado e de contas tão pormenorizadas que, de todos os segredos do negócio, ele não consegue recompor a contento o seu estoque. Que fazer? Agrada-lhe a fama de ser homem piedoso e temente a Deus, agrada-lhe igualar-se, nesse particular, aos seus vizinhos. Em conseqüência, desiste de trabalhar e procura encontrar alguém a quem possa entregar o governo da sua vida religiosa. Um clérigo de fama é o ideal. A essa figura ele adere, entrega-lhe toda a parafernália da sua religião, com as chaves de todas as fechaduras e cadeados. A rigor, ele faz dessa pessoa a sua religião. Entende que a simples associação com ela é prova cabal e suficiente da própria piedade. Assim, esse homem poderá dizer que sua religião já não está no seu íntimo, mas tornou-se como que um bem móvel, dotado da faculdade de ir e vir perto dele, ao sabor das visitas do santo, que lhe freqüenta a casa. Ele o recebe, festeja-o, presenteia-o, hospeda-o. Sua religião volta para casa à noite, reza, ceia lautamente, e é posta para dormir. De manhã, levanta-se, é saudada e prova da malvasia que lhe oferecem, ou toma alguma beberagem aromatizada. Fica melhor alimentado do que aquele cujo apetite se daria por satisfeito se comesse alguns figos verdes entre Betânia e Jerusalém. Sua religião sai às oito horas e deixa seu amável anfitrião na loja, negociando o dia todo sem sua religião.” (páginas 143-145)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Ostenta-Deus

Elias Canetti é um autor que me surpreende a cada leitura e releitura. Não se trata apenas de seu livro cáustico e exasperador, Auto-de-fé. Sua obra é muito maior, suas inquietações perseguiram-no a vida inteira, principalmente a tentativa de compreender o fenômeno das massas no século XX (Massa e Poder). Os três primeiros volumes de sua autobiografia são uma verdadeira exegese da vida cultural na Europa do início do século XX (A Língua Absolvida, Uma Luz Em Meu Ouvido e O Jogo dos Olhos). Nesta trilogia encontramos todos os atores de uma das mais criativas fases da literatura alemã e de sua música, naquelas belas páginas de memória estão: Koestler, Krauss, Broch, Musil, Berg, Brecht, Babel, Mann, Scherchen entre outros. No Brasil saiu recentemente o último volume de sua autobiografia, Festa Sob Bombas, que relata os seus anos na Inglaterra.

Mas este post não pretende destacar suas grandes obras, mas sim um pequeno livro, “O Todo-Ouvidos” (Cinquenta caracteres). Neste pequeno livro, Canetti mostra-nos vários tipos ideais podem existir na sociedade moderna. 

xxx

O Ostenta-Deus

O Ostenta-Deus nunca precisa perguntar a sim mesmo o que está justo. Basta que consulte o Livro dos Livros. Lá encontra tudo o que necessita. Lá tem um amparo. Lá se escora assídua e vigorosamente. O que for que ele deseje empreender, Deus o subscreverá.

O Ostenta-Deus acha as sentenças necessárias. Seria capaz de achá-las até dormindo. Não precisa preocupar-se com contradições. Elas lhe trazem proveito. Salta por cima daquilo que não lhe for útil e fixa-se numa frase insofismável. Esta será guardada para toda a eternidade, até que, com o auxílio dela, ele obtenha o que queria. Mas, depois, se a vida continuar, descobrirá outra.

O Ostenta-Deus confia no passado mais remoto e a este recorre. As sutilezas complicam tudo, e a gente passa muito melhor sem elas. O ser humano pleiteia uma resposta clara, e que permaneça sempre igual. Respostas ambíguas são inutilizáveis. Para diferentes perguntas, há dogmas distintos. Que se lhe apresente uma interrogação à qual não possa responder de modo adequado!

O Ostenta-Deus leva uma vida regrada e não perde tempo. Mesmo que o mundo desmorone a seu redor, não o acossarão dúvidas. Aquele que o criou há de salva-lo, no último instante, do ocaso, e se isso for impossível, reconstruí-lo-á após o cataclismo, para que Seu verbo se mantenha intacto e corroborado. A maioria das pessoas perecerá, porque não atentam nas Suas palavras. Mas os que prestarem atenção a elas, não se perderão realmente. Por ora, o Ostenta-Deus foi redimido de quaisquer perigos, ao passo que milhares tombaram em torno dele. Ele, porém, continua firme. Nunca nada o atingiu. Será que esse fato não terá nenhuma importância?

O Ostenta-Deus, humilde como é, não se gaba da sua condição. Conhece a estupidez dos homens e lastima-os, pois poderiam ter uma sorte muito mais amena. Mas não querem! Crêem viver em liberdade e não suspeitam o quanto são escravos de si mesmos.

Quando se encoleriza, o Ostenta-Deus, ameaça-os, mas não se serve de suas próprias palavras. Para fustigar as criaturas humanas há outras maneiras muito mais adequadas. Então se ergue, inchando a garganta, como se estivesse pessoalmente no cume do Sinai. Troveja, anuncia castigos, cospe, relampeia, arranca lágrimas da chusma abalada. Por que mais uma vez não o escutaram? Quando, finalmente, lhe prestarão atenção?

O Ostenta-Deus é um bonitão. Tem voz e melena.

CANETTI, Elias. O todo-ouvidos: cinqüenta caracteres. Trad. Herbert Caro. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. Páginas: 101-103.