"Gaza diante da história", Enzo Traverso, Editora Âyné.
"Desde 15 de outubro de 2023, oitocentos pesquisadores de diferentes disciplinas, do direito internacional aos estudos sobre o genocídio e o Holocausto, alertaram sobre um risco de genocídio em Gaza. Nos meses que se seguiram, o Journal of Genocide Research abriu um debate sobre a questão ao publicar inúmeras intervenções que apresentam esse genocídio não mais como um "risco", mas como uma realidade. Para Raz Segal, professor de estudos sobre o genocídio e o Holocausto na Stockton University (New Jersey, EUA), Gaza constitui ´um caso clássico de genocídio´, e essa avaliação é compartilhada por A. Dirk Moses, também titular de uma cadeira consagrada ao estudo dos genocídios e autor de diversas obras de referência na matéria. Conforme ele salienta, a intenção de aniquilar Gaza em seu conjunto estava implícita na declaração de Benjamin Netanyahu em 28 de outubro, em que ele citava o episódio bíblico da luta implacável dos judeus contra os amalequitas (a passagem de I Samuel 15,3 diz o seguinte: "Agora vão, ataquem os amalequitas e consagrem ao Senhor para destruição tudo o que lhes pertence. Não poupem; matem homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, ovelhas, camelos e jumentos." (pág. 20-21).
A parte bíblica foi sublinhada em itálico justamente para mostrar como líderes políticos e religiosos agem mobilizando fiéis e outros mais promovendo ódio e justificando a violência, o extermínio, e na hipótese menos drástica, a perseguição a indivíduos e nações. Parafraseando os religiosos, "não há salvação fora do laicismo".
